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A Igreja de Cristo é católica (5)

Parte 5 de uma palestra sobre o artigo 27 da Confissão Belga, para o Encontro da Fé Reformada (Recife), no dia 31 de outubro de 2013.

Quero voltar ao assunto catolicidade e tratar sobre o significado de catolicidade da igreja.

Vocês têm conhecimento de que, às vezes, tem sido difícil para alguns crentes aceitarem a catolicidade da igreja. Muitos têm problemas com outros que são diferentes deles. Por exemplo: pessoas que têm cor de pele diferente de outrem, ou uma cultura diferente. Ou um status econômico e social diferente, ou até uma língua diferente. E, às vezes, é difícil, um desafio, observar como pessoas diferentes é uma bênção ao invés de vê-los como uma ameaça. Esse desafio já exista na época dos apóstolos. É exatamente isso que observamos em Atos 11. Pedro tem uma visão extraordinária que abre seus olhos. Ele simplesmente entende que os planos de Deus são muito maiores do que simplesmente a nação dos judeus. Mesmo Cristo, antes de Atos 11, já tinha dito pessoalmente para Pedro, exatamente, essa perspectiva, essa informação. É exatamente isso que Cristo já havia dito para todos os outros apóstolos. Em Atos capítulo 1, Cristo envia para as nações, primeiro indo para Jerusalém e depois expandindo as Suas ações missionárias em círculos concêntricos. Mas para Pedro, essa informação não foi registrada. Foi preciso uma visão vinda dos céus e depois ter um encontro com Cornélio para que Pedro pudesse entender que as portas da igreja estão escancaradas. As portas da igreja estão escancaradas para todo o tipo de pessoas, povos, tribos, língua e nações.

E o que ilustra isso muito bem é o que chamamos também de catolicidade geográfica e cultural da Igreja. Isso significa dizer que a igreja se espalha por todas as nações da terra. Podemos ir a, praticamente, todos os lugares do mundo e encontrar cristãos lá. Em alguns locais, obviamente, precisamos ter contatos apropriados e saber onde procurar; mas eles estão lá. Deus tem o Seu povo em muitas cidades e em muitos países; pessoas como eu e você, não têm a menor ideia de que eles existem. Nos últimos tempos, estava pregando na Ucrânia, em uma conferência bem semelhante a essa. E ali, um dos missionários reformados falou-me sobre uma oportunidade que ele teve de ir ao Cazaquistão para ajudar no treinamento de pessoas para servir à Igreja Reformada lá. Quem vai saber que há uma Igreja Reformada lá no Cazaquistão?! Eu não sabia disso, eu não tinha a menor ideia disso, mas o povo de Deus é encontrado em todo o lugar. E eles vêm de todos os tipos de culturas distintas. E perceba que isso é uma coisa linda e muito boa: Deus deleita-se na diversidade. Se você tem alguma dúvida disso, vá ao zoológico ou olhe um aquário. Diferentes cores e formas diferentes, todos criados por Deus, nosso Criador. Deus foi Aquele quem pôs a diversidade nesse mundo e Ele ama essa diversidade. Exatamente isso acontece, também, no meio de Seu povo; nos novos céus e nova terra haverá esse grupo diversificado de cultura e povo de Deus, salvo, cantando um novo cântico ao Cordeiro. Magnificando juntos a glória do nosso Deus. Será simplesmente como um coral que canta com vozes diferentes… Não sei se já perceberam que há partes de corais que cantam um setor de uma música; outros que cantam outros setores da música, mas quando eles juntam as vozes, elas soam muito bonito. E assim será quando a igreja católica estiver ali, junta, perante o nosso Deus, aqueles cantos belíssimos de louvor ecoarão para sempre na eternidade. Vocês estarão cantando em português; talvez eu esteja cantando em português; estaremos todos louvando a Deus.

Além dessas questões de diversidade cultural, existe também a questão do tempo; chamamos a esse aspecto da catolicidade, de aspecto temporal. Isso quer dizer que tem relação com o tempo. No artigo 27, nós vemos esse conceito de catolicidade temporal sendo trabalhado no segundo parágrafo. Esse é um ensinamento importante também para hoje. Muitas pessoas acham que a igreja começou lá em Pentecostes; muitos crentes acreditam que a igreja é o plano B de Deus; o plano A de Deus foi trabalhar com os judeus, e essas pessoas pensam que Jesus veio estabelecer Seu Reino entre os judeus. E como isso não funcionou, as pessoas pensam que Deus colocou a marcha dois, a segunda; engatou a segunda e começou a trabalhar com os gentios por intermédio dos apóstolos. Esse tipo de visão tende a dizer que a igreja começou em Pentecostes. Eles dizem que Pentecostes é o dia do nascimento da igreja. Essa visão é extremamente popular; mas é muito errada e não bíblica.

A igreja começou com Adão e Eva; a igreja continua desde aquele momento até a eternidade. O mundo sem fim, desde a criação de nossos primeiros pais, sempre houve uma igreja e sempre haverá uma igreja. Por que isso? A Confissão Belga responde a essa pergunta com um argumento brilhante: Cristo é um Rei eterno, e como Rei eterno, não pode estar sem súditos. O autor da Confissão Belga, Guido de Brès, que mencionei anteriormente, acho que ele aprendeu esse tipo de argumentação diretamente de João Calvino. Pregando um sermão sobre a ascensão de Cristo, Calvino utiliza exatamente a mesma argumentação. E como esse tipo de argumentação funciona? É bem simples, deixem-me explicar para vocês: Cristo é um Rei eterno. Essa é uma verdade bíblica inegável. Ele sempre foi Rei e Ele sempre será Rei. Agora, por definição, um rei precisa de súditos. É inimaginável um rei sem súditos; portanto, Cristo, como um Rei eterno, sempre terá súditos. Eles são aqueles que reconhecem o Seu reinado. E esses súditos são aqueles que Ele mesmo ajuntou dentro da Sua igreja. Para esclarecer: a igreja não é a mesma coisa que o Reino de Deus, mas é lá onde encontramos os súditos do Rei. Portanto, sempre houve um reino para Cristo e sempre haverá um reino para Cristo; e é por isso que falamos sobre a catolicidade temporal da igreja. A sua natureza universal estende-se desde o passado e vai também até ao futuro.

E porque esse ensino é importante? Ele nos lembra de que precisamos olhar para fora de nós mesmos. O nosso mundo atual é extremamente individualista, narcisista. A catolicidade da igreja faz-me lembrar de que a igreja é maior do que eu mesmo. Essa doutrina lembra que a igreja é muito maior do que os meus irmãos queridos ou do que a Congregação da qual participo. Ela é bem maior do que a Igreja Presbiteriana, ou do que a Igreja Reformada, ela é uma igreja que se estende desde o passado, milênios no passado; então, Abraão não é somente um pai na fé, mas ele também é um irmão em Cristo. Um membro da mesma igreja da qual sou membro. E Ruth não é somente uma avó do Senhor Jesus Cristo, mas ela também é um membro da mesma igreja da qual somos membros. A igreja, a qual Paulo e Pedro pertenciam, é a mesma igreja católica da qual eu pertenço, vocês pertencem e todos que somos verdadeiramente crentes. Percebam que somos parte de algo que é maior do que nós mesmos.

Podemos olhar para a história e aprender tanto com isso! Há quatrocentos e cinquenta anos, Guido de Brès identificou uma dessas lições. Ele e seus contemporâneos estavam bem familiarizados com o fato de sofrer a ira do mundo contra eles. Essa confissão fora escrita na Holanda, o que, naquele tempo, incluía o que chamamos de Bélgica, hoje. Naquele tempo, aquela área da Bélgica estava sob o domínio da Espanha e, obviamente que os espanhóis eram católicos romanos e odiavam o Evangelho. Então eles perseguiam as Igrejas Reformadas Holandesas. As igrejas eram chamadas de igrejas perseguidas sob a cruz. Quando a perseguição era muito intensa, obviamente que visualmente seus números diminuíam. E quando a autoridade espanhola aliviava da perseguição, muitas pessoas vinham e estavam de volta à Igreja Reformada. Mas, nos piores momentos da perseguição, o número das Igrejas Reformadas era contado nos dedos das mãos. E aí essas igrejas tinham uma aparência patética e até de pena para os que viam, mas Guido de Brès era um bom aluno, um bom estudante das Escrituras. Ele sabia da história de Elias nos dias de Acabe. Elias estava reclamando que só ele restava dos fiéis, “não havia mais ninguém, a igreja estava aparentando estar extinta, mas a realidade estava escondida aos olhos de Elias e foi somente revelada a ele pela Palavra de Deus. Deus veio e disse a ele que existiam sete mil ainda que não haviam dobrado os joelhos no meio da Congregação da Aliança. Sete mil que Elias não sabia da existência deles. Deus, naquele momento, havia preservado a Sua igreja. Deus preservou a Sua igreja naquelas perseguições, no século XVI. Deus continuará a preservar a Sua igreja hoje; está prometido nas Escrituras e ilustrado nas Escrituras, e tem sido ilustrado várias vezes na história da igreja. Deus é Poderoso e Fiel, e Ele não vai deixar a Sua noiva sozinha.

Deus ama a Sua igreja católica, cristã, universal. E que grande bênção é poder participar desse corpo diversificado de crentes! Certamente, experimento essa bênção, congregando com vocês aqui no Brasil. Que extraordinário saber que estamos dentro dessa assembleia única e sabermos que estamos sendo reunidos pela vontade de nosso Deus! Nesse momento, vemos apenas um vislumbre do que significa ver essa igreja católica. Mas, à medida que caminhamos juntos, em fé, Deus nos promete que veremos a realidade por completo. E quando esse dia chegar, ouviremos uma belíssima melodia no coral de vozes louvando a Ele na eternidade. Irmãos e irmãs, vamos, desde já, nos preparar para cantar e fazermos parte daquele grande coral!

Este artigo foi gentilmente cedido por umdiscipulodecristo.wordpress.com.

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