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O fenômeno Cinquenta tons de cinza

Tenho de começar esse texto fazendo duas confissões. A primeira é que ainda não li Cinquenta tons de cinza — o best-seller sobre o qual todo mundo está falando. A segunda é que não tenho a menor intenção de fazê-lo. De algum modo — talvez pelo flagrante mau gosto da coisa toda — ele simplesmente não me apetece. Entretanto, após ter lido algumas boas resenhas, esse parece ser o tipo de livro digno daquela observação de Ambrose Bierce: “As capas deste livro estão muito distantes”. Cerca de 480 páginas de distância, antes que você me pergunte.

Qualquer pessoa sabe que um jeito bem ruim de resenhar um livro é não tê-lo lido antes; então, ao invés de me lançar a um retumbante fracasso nessa tentativa, meu objetivo é simplesmente olhar para o fenômeno dos Cinquenta tons através das lentes de uma visão de mundo cristã. Se você estiver questionando se temos mesmo de considerar esse tipo de coisa, a resposta é simplesmente esta: os muros da igreja e das famílias estão hoje certamente mais cheios de brechas do que jamais estiveram, e ao invés de irradiar luz por suas frestas, o que ocorre é normalmente o contrário. O conteúdo que está do lado de fora entra na igreja e nas famílias, e boa parte dele não é bom. Fingir que esse conteúdo não existe não é a resposta. Existe, sim, e sua influência é enorme. Mesmo cristãos estão lendo livros como esse, o que obviamente não é bom, mas ainda que não tivessem contato com tais livros, a influência de tais materiais ainda se faria sentir na igreja e nas famílias cristãs, a medida que os tabus culturais tornam-se práticas culturais. A única maneira de deter esses efeitos perniciosos é saber com o que estamos lidando e estar completamente seguros de que temos o antídoto.

De que trata?

No caso de você incrivelmente ainda não saber da existência de Cinquenta tons de cinza, de E. L. James, esse é exatamente agora o livro mais comprado no mundo, tendo vendido em toda parte 40 milhões de cópias. É também considerada a brochura vendida mais rapidamente em todos os tempos, desbancando a série Harry Potter, de J. K. Rowling.

A trama central é o “relacionamento” entre uma ingênua moça de 22 anos, Ana Steele, e Christian Grey, um bem-sucedido empresário de 27 anos a quem ela conhece ao entrevistá-lo para um trabalho universitário. Ela se sente atraída por ele e espera viver um romance, mas logo fica claro que ele não está interessado em um relacionamento do tipo “flores e chocolate”, e que o único tipo de relacionamento no qual está interessado é algo puramente sexual envolvendo servidão, dominação, sadomasoquismo. Eu não quero entediar você com mais detalhes escabrosos, basta dizer que o resto do livro é uma dispersão de cenas que caberiam facilmente em qualquer revista pornográfica explícita.

Por que as feministas amam/odeiam esse livro?

O fato mais interessante sobre o fenômeno dos Cinquenta tons é que a esmagadora maioria de seus leitores é mulher. Por que isso é interessante? Bem, aqui estamos meio século depois da aparente emancipação das mulheres, e milhões delas estão com a língua de fora por um livro pornográfico sobre uma garota que se submete a um pervertido autoritário, dominador, e permite que ele faça o que bem quer com ela. Quanto empoderamento! Quanta emancipação!

O feminismo pode parecer confuso para aqueles que não fazem parte dele. As feministas aprovam ou condenam a pornografia? Ela é uma força poderosa e libertadora nas mãos das mulheres, ou uma ferramenta de opressão e humilhação nas mãos dos homens? Bem, tudo depende de com quais feministas você está falando. Durante o fim dos anos 1970 e início dos anos 80, um racha dividiu o que ficou conhecido como feministas da segunda onda, e na subsequente guerra dos sexos feminista, dois grupos usaram o termo “feminista” para se descrever, embora mantivessem visões diametralmente opostas em assuntos tais como a pornografia.

Uma busca rápida na internet revela exatamente essa discórdia com respeito a Cinquenta tons de cinza. Por exemplo, no site Feministing.com, as defensoras do “Cinquenta tons é libertação” discutem em termos efusivos sobre quão alentador é para as mulheres poder ler tal literatura supostamente iluminadora sem sentir-se envergonhada. Uma das autoras comenta: “Para mim, a popularidade de Cinquenta tons é evidência de que, no mínimo, as mulheres gostam de ler sobre muitos tipos de relação sexual — e as pessoas provavelmente deveriam experimentar todos esses tipos, porque todos parecem ser realmente interessantes”.

Enquanto isso, no site Hercirclezine.com, as adeptas do “Cinquenta tons é opressão” perguntam como é possível em algum lugar do planeta Terra uma feminista endossar tal livro. Uma delas diz: “Estes livros dizem às mulheres que elas querem não apenas ser objetos… mas também que querem ser dominadas — no quarto e fora dele. É pornografia em sua forma mais pura, e a pornografia prospera porque é o que os homens querem ver”.

Devo admitir que se eu tivesse de escolher um grupo, ficaria exata e prontamente do lado do “Cinquenta tons é opressão”. É claro que a pornografia torna as mulheres em objeto — essa é a questão toda aqui. A pornografia é específica e inteiramente antitética às relações. Cinquenta tons de cinza não é diferente, e se as que alegam que ele é libertação realmente acreditam que livros como esse não darão sua contribuição ao solapamento do que ainda resta de honra e ternura entre os sexos, então elas devem fazer três coisas:

– Sair do mundo da lua;

– Estudar as estatísticas de crescimento de crimes sexuais e violentos nos últimos 50 anos e pôr ao lado alguns gráficos traçando a explosão da pornografia;

– Tentar entender isso.

O que a submissão bíblica não é

Mas embora eu esteja do lado das adeptas do “Cinquenta tons é opressão” em suas críticas ao livro, é só até aí que minha aliança com elas pode ir. Elas estão corretas apesar de sua cosmovisão, não por causa dela. Isso é visto no seguinte comentário postado no Hercirclezine.com, reagindo às notícias de que a diocese anglicana de Sidney está para incluir uma promessa de que a noiva deve “amar e ser submissa” ao marido:

” O que eu acho especialmente incômodo é essa nova moda que está acontecendo em Sidney, onde as mulheres devem adotar uma tendência do tipo Cinquenta tons de cinza. Seus votos de casamento incluem um contrato de submissão. Isso é degradante e um tremendo retrocesso. Todas essas mulheres que se deleitam em ser submissas são patéticas ovelhinhas deslocadas no tempo (ou talvez precisem de ajuda psicológica). “

De algum modo essa moça e muitas outras como ela parecem acreditar que o tipo de submissão que está sendo jurada nos casamentos de Sidney — juramento baseado na Epístola de Paulo aos Efésios — é do mesmo tipo que está sendo retratada em Cinquenta tons de cinza. Para tais pessoas, só há dois tipos de submissão possíveis nas relações homem/mulher:

– O estilo islâmico, no qual a mulher não é mais do que um capacho, desprovida de ideias próprias e tendo de andar atrás de seu marido vestindo algo parecido com uma roupa de morcego,

– ou a submissão do tipo objeto sexual, na qual a mulher é meramente uma escrava das exigências de um pervertido arrogante.

E então quando Paulo escreve que as mulheres devem ser submissas ao marido, ele estaria enfatizando a submissão no estilo islâmico ou a submissão a uma perversão sexual. Ou quem sabe ambas. Correto?

Bem, não exatamente. Isso é o que se pode chamar de grande mal-entendido. Deixe-me esclarecer: Cinquenta tons de cinza não nasceu de uma cultura cristã. Nem poderia vir de uma cultura cristã. A cultura que gerou esse livro é o secularismo humanista que coloca o sexo e o direito ao orgasmo em pé de igualdade com as liberdades fundamentais da Constituição. Então, para as feministas que confundem o apóstolo Paulo com a autora E. L. James: por mais que vocês odeiem Cinquenta tons de cinza, vocês não estão fazendo isso a partir da cosmovisão cristã, mas da cosmovisão feminista — uma cosmovisão que rejeita totalmente o cristianismo e tudo que ele tem a dizer sobre a relação homem/mulher.

O que é a submissão bíblica

Para que se registre, o tipo de submissão bíblica de que falou Paulo não se assemelha à relação entre o tapete e a sola do sapato, nem à relação entre um cafetão e uma prostituta (vide Hebreus 13.4), mas, ao invés disso, a mulher deve submeter-se a um marido que “ama sua esposa como Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Efésios 5.22, 25). Logo alguém dirá que muitas mulheres não são casadas com homens assim tão altruístas, então como se pode esperar que sejam submissas? Isso é bem verdade, mas Paulo está escrevendo a cristãos dentro do contexto da Nova Aliança, e por isso se qualquer marido age de tal modo a tornar impossível a submissão de sua esposa à sua liderança, então como recurso último ela tem todo o direito de levar o caso aos presbíteros da igreja, e eles têm a obrigação de tratar desse problema.

Ao mesmo tempo, uma objeção desse tipo não tem outro propósito senão o de tirar o foco da questão central. Pois a rejeição das feministas ao ensino de Paulo não é para que as mulheres não tenham de submeter-se a um marido ranzinza, mas para que não tenham de submeter-se a ninguém — nem mesmo a um marido que a ame de forma sacrificial. O que elas simplesmente não entendem é isto: a submissão da esposa cristã não é um sinal de inferioridade. Não significa que ela é de algum modo menor do que o seu marido em dignidade ou honra, ou que as opiniões e desejos dela são de alguma forma menos dignos do que os dele. Pelo contrário, ela é igual a ele em cada aspecto — ela é a glória de seu marido, como Paulo deixa claro em outra parte — mas com uma exceção: na hierarquia estabelecida por Deus é o marido que é o “diretor” da casa. Ele é aquele que carrega a responsabilidade por sua direção e é ele que irá prestar contas de tudo que acontece em seu lar.

Cinquenta tons de cinza sem dúvida continuará conquistando milhões, e com isso dando a hordas de mulheres a falsa ideia de que o que estão lendo é emancipação feminina. Não é. A emancipação feminina não pode ser encontrada rejeitando-se o tipo de submissão apresentada em Cinquenta tons e então se rejeitando também o tipo de submissão apresentada em Efésios só porque alguém não consegue dizer qual a diferença entre esses dois tipos de submissão. A verdadeira emancipação da mulher está em primeiro confiar em Jesus Cristo e então buscar um homem que se esforça por se assemelhar a ele. Submeter-se a esse tipo de homem será para ela glória e deleite.

Original: Not from my Worldview: The Fifty Shades of Grey phenomenon. Disponível em Reformed Perspective. / Tradução: Márcio Santana Sobrinho.

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