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Privatizem a Copa! (De verdade)

O filme australiano The Castle (O Castelo) retrata uma família humilde que vive feliz à beira da pista do aeroporto internacional. Um belo dia, a família é avisada: vai ter que se mudar, pois haverá obras de expansão da pista. O pai, trabalhador honesto, recorre à justiça. O burocrata municipal diz que a empreiteira tem uma “relação especial” com o governo. A casa da família sofreu “aquisição compulsória” e haverá compensação pela perda da propriedade. O pai diz: “mas nós não queremos nos mudar!” Sua casa é seu castelo.

Por causa de uma “relação especial” entre corporações e governo, a Copa do Mundo de 2014, antes mesmo de acontecer, tem gerado uma série de protestos. Não é surpresa: afinal, muitos que vivem “no caminho” das obras públicas têm sido “convidados” a se retirar – logicamente, após receberem alguma compensação – para não “atrasarem o progresso”.

Um representante do alto escalão da FIFA declarou que o país é democrático demais, o que dificulta o andamento da preparação para o evento:

Vou dizer algo que é maluco, mas menos democracia às vezes é melhor para se organizar uma Copa do Mundo. Quando você tem um chefe de estado forte, que pode decidir, assim como Putin poderá ser em 2018, é mais fácil para nós organizadores do que um país como a Alemanha, onde você precisa negociar em diferentes níveis.

Por essa lógica, o melhor ambiente para se preparar uma Copa do Mundo é um país fascista que dita de cima para baixo o que pode e não pode, e que não dá a mínima para as leis e instituições que compõem seu ambiente político. Não admira que a esquerda reclame do suposto “capitalismo desenfreado” e problemático por trás disso tudo.

Mas é aqui que tanto os defensores como os críticos da Copa no Brasil se enganam. Os críticos se enganam quando pressupõem que vivemos de fato num sistema capitalista no sentido estrito. Na verdade, temos mesmo é uma economia mista: o componente capitalista dessa economia é parasitado pelo componente socialista.

O caso da Copa ilustra bem esse princípio. Direitos de propriedade privada são violados com a desculpa do “bem comum” (seja lá o que isso signifique). Porém, na verdade, o processo favorece as grandes corporações por trás da preparação do evento futebolístico. Ora! O fato de que espoliar a propriedade privada é legal (e visto como desejável algumas vezes) no nosso país diz algo contra, e não a favor, do pressuposto dos críticos!

E, por outro lado, os defensores da Copa, especialmente a FIFA, se enganam quanto ao autoritarismo ser um ambiente mais propício ao evento: que tentem organizar uma Copa do Mundo no Zimbábue! Ah! Mas aqui os defensores da Copa devem parar e admitir que o componente de liberdade (mínimo que seja) ainda restante no país favorece tanto a Copa como qualquer outro negócio.

Para os críticos da Copa, vivemos numa economia muito livre e num sistema muito autoritário. Para os defensores, precisamos de ainda mais autoritarismo, mas a liberdade é boa. Acontece que liberdade há de menos, e autoritarismo, mais do que o tolerável para qualquer negócio.

A não ser… a não ser que esse negócio seja um cliente especial do governo autoritário que finge haver liberdade! Um cliente que lucra por causa de privilégios especiais. Por estar fora do sistema, isento das forças de mercado, da troca voluntária. Um cliente que usa o poder de coerção e compulsão do governo para seus fins privados.

Mas isso não é mercado nem capitalismo: é intervencionismo. É a economia da máfia. Dos privilégios especiais. É a institucionalização do acréscimo fascista aos Dez Mandamentos. Deus manda não furtar. O governo diz: “minha autoridade é maior. Quando eu permitir, podes furtar à vontade”. A FIFA quer mais permissão. Os críticos, menos. Só que hesitam em tirar a conclusão: a Copa deve ser privatizada. De verdade.

Para mais reflexões sobre a política do esporte moderno, ver:

Este artigo foi gentilmente cedido por Política Reformada.

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