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Protestos no Brasil: Chegou a hora de uma Política Reformada?

O ano de 2013 tem sido extraordinário na história política do Brasil. No primeiro semestre, estive no Instituto João Calvino (seminário teológico das Igrejas Reformadas do Brasil) ensinando sobre a tradição antirrevolucionária de pensamento político reformado. Os alunos e eu discutimos a crítica que Groen van Prinsterer fez à ideologia e aos métodos humanistas da Revolução Francesa. Nós falamos de Althusius e sua defesa da resistência legítima no contexto da Revolta Holandesa. Nós também tratamos da ênfase de Calvino na questão da obediência e vimos que Kuyper fez questão de destacar a necessidade de limitar o papel do governo civil. A preleção sobre a teoria do estado de Dooyeweerd foi especialmente animada e contou com a presença de dois alunos convidados que viajaram mais de uma hora para se juntar ao grupo: um filósofo profissional e um servidor do Ministério Público. Contudo, o debate mais importante teve a ver com a aplicação dessas ideias que ainda parecem muito abstratas ou históricas demais para nós. Uma semana depois, eu estava de volta na Inglaterra e voando no dia seguinte para o Canadá, enquanto surgia uma onda de protestos populares no Brasil. A tradição antirrevolucionária começava a fazer sentido na prática.

Não é de surpreender que boa parte dessa onda de protestos tenha sido cooptada por grupos treinados e dispostos a iniciar uma revolução a qualquer momento, grupos ligados aos partidos políticos mais radicais. Por outro lado, muita gente alegou ser ‘apartidário,’ fugindo dessa lógica. Em todo caso, a maioria queria uma solução vinda do governo: transporte coletivo barato ou gratuito, saúde pública de qualidade e sem custo, melhoria na educação estatal e no combate à corrupção. Um número pequeno de manifestantes defendia a limitação do governo à justiça pública e demandava a desregulação desses outros setores para permitir a emergência de soluções ‘de mercado’ ou, alternativamente, ‘da sociedade civil.’ Eu sei que houve, também, um grupo cristão separado que organizou seu próprio protesto, separado dos demais: a ‘igreja na rua,’ defendendo a necessidade de denunciar a injustiça, mas sem violência e balbúrdia, indo além da praça pública e convocando os crentes ao arrependimento pessoal e à transformação cultural.

Alguém me perguntou sobre a ética do protesto e sobre a legitimidade dessas reivindicações. Isso me fez pensar na necessidade urgente que nós temos de formar um instituto independente, reformado e confessional que trabalhe com cientistas políticos e sociais, com jornalistas e juristas, para promover, comunicar e aplicar a cosmovisão bíblica à vida pública brasileira. Essa organização tentaria interagir com grupos semelhantes, mas especializados em outros aspectos intelectuais e práticos da vida cristã. Ela seria parte de um ‘todo.’ Quando eu descrevi esse ambicioso projeto a um dos presbíteros, ele disse: “Em outras palavras, esse ‘todo’ é o ‘movimento’ que temos pedido a Deus em oração nestes anos.” É isto: o Brasil precisa de um movimento reformado.

A análise clara e a pesquisa especializada são essenciais e, até mesmo, cruciais para a ação política cristã. Porém, um ‘movimento’ não pode existir sem obreiros e sem um público. O Brasil é um país tão gigante quanto o inchaço de seu governo. Nesse contexto, quem deseja se engajar na vida pública tende a ignorar o potencial das instituições e das organizações que operam ‘no meio,’ entre o estado, a família, a igreja e a empresa. Essas pessoas acham que ação política é ‘sequestrar’ o governo federal para revolucionar o país da noite para o dia. Não existe cultura de mobilização política antirrevolucionária com a ‘sociedade civil’ e com o uso dos magistrados inferiores no processo. Em certos lugares, o mais perto que alguém chega desse ‘pluralismo político’ é a participação compulsória num sindicato trabalhista, ordenada pelo próprio governo. Belo pluralismo, esse!

Ou seja, existe uma necessidade imensa. A emergência dum ‘movimento’ será muito mais fácil se o povo começar a entender o papel da ‘sociedade civil’ e do ‘setor sem fins lucrativos’ no pensamento e na ação cristã em diversas áreas da vida. O desafio inicial é de orar e agir para que um público-alvo apareça. Ideias parte essencial do projeto, e é possível adaptar o que já existe em outros lugares, isto é, o conhecimento teórico e institucional disponível onde as associações reformadas e o material cristão de leitura têm desempenhado uma certa influência. Essas ideias podem ser transmitidas ao nosso público em potencial usando a internet e alguma literatura traduzida. Nós podemos (e devemos) desenvolver um trabalho educacional. Porém, na hora certa, o ‘movimento’ terá que ‘dividir o trabalho,’ iniciando e formalizando diversos institutos e organizações.

Durante minhas aulas no Brasil, uma das discussões mais interessantes foi sobre a ética do trabalho, e não sobe tirania e resistência. Um aluno perguntou se era legítimo ao cristão entrar em greve. Isso levou a uma questão maior. Partindo do chamado de Kuyper a formar associações confessionais, cada uma com sua missão bem definida, nós discutimos a necessidade de grupos que promovam o apoio intelectual, normativo e prático a quem deseja aplicar uma abordagem distintamente cristã a problemas do dia-a-dia, como esse relacionado à ética do trabalho. Eu mencionei o exemplo dos nossos irmãos e irmãs na América do Norte, onde isso tudo já está disponível. Reconhecemos, assim, seu esforço e sua luta em gratidão.

Traduzido e adaptado pelo próprio autor. O artigo “Protests in Brazil: Time for Reformed Politics?” foi publicado originalmente pela revista Christian Renewal 31, no.16-17 (Julho/Agosto 2013): 8

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