saudacao

Saudação

Introdução

“Graça e paz da parte de Deus Pai e do Nosso Senhor Jesus Cristo.” Sempre ouvimos estas palavras no início dos nossos cultos. Elas constituem a saudação do Senhor ao Seu povo. Qual é o propósito da saudação? É apenas algo mais no culto? São palavras soltas ao vento? Ou elas têm um significado prático para a vida da Igreja? Cada ato de culto tem um significado importante. A invocação revela nossa dependência de Deus. A saudação, por sua vez, é a resposta de Deus à invocação do Seu povo. É a promessa de que Ele está presente para cuidar de nós e nos conduzir à salvação mediante a graça, paz e misericórdia derramadas sobre o Seu povo. As palavras da saudação comum que ouvimos nos cultos são retiradas das epístolas de Paulo (Rm, I e II Co, Gl, Ef, Fp, Cl, I e II Ts, Tt e Fm). Em I e II Timóteo, Paulo acrescentou a palavra “misericórdia” entre “graça” e “paz”. Pedro, João e Judas usaram formulações diferentes, mas falando de paz, graça e misericórdia (I e II Pe, II Jo e Jd). Alguns ministros sentiram falta da menção do Espírito Santo nas saudações, então, livremente, adicionaram a expressão: “e na comunhão do Espírito Santo”. Isso é desconhecido das saudações apostólicas. Os apóstolos não a fizeram. Por que devemos fazê-la?

A saudação mais elaborada que encontramos está em Ap 1.4-6 (ler). Algumas observações dessa saudação:

1) João aponta para o Deus Triúno como a fonte da graça e da paz para a Igreja (v.4).

2) João enfatiza a Pessoa Gloriosa de Cristo (v.5a):

a) Jesus é a Fiel Testemunha: Durante Seu ministério terreno, Jesus deu testemunho do Pai. Ele proclamou a verdade de Deus com Sua vida e obra. Ele não era um impostor, alguém que se dizia o que não era. Ele era, de fato, o Ungido de Deus. O que Ele dizia era verdade. O que Ele fez estava de acordo com o plano redentor do Pai. Ele cumpriu as Escrituras. Ele é o amém, o cumprimento da promessa de Deus em favor da nossa salvação. O próprio Jesus se apresenta como testemunha fiel (Ap 3.14). Por causa da incredulidade dos judeus diante do Seu testemunho fiel, Jesus foi perseguido e morto. Ele morreu sem ter cometido crime algum. Por causa da Sua obediência ao Pai e por dar testemunho da verdade, Ele foi levado à cruz. Mas a cruz não O reteve; Ele ressurgiu e está na glória, de onde continua a dar testemunho da verdade. O livro de Apocalipse é o Seu testemunho da verdade de Deus sobre a história do mundo e o destino da Sua Igreja. Ele nos chama a testemunhar o Seu evangelho às nações (At 1.8). Quem O ama e se mantém fiel à Sua verdade e a proclama fielmente em doutrina e vida também pode sofrer perseguição e até a morte (Ap12.11). Contudo, a morte não é o fim para aqueles que testemunham fielmente de Cristo com suas vidas, pois Aquele que é a Fiel testemunha é também o Primogênito dos mortos.

b) Jesus é o Primogênito dos mortos: Este título não significa que Jesus é o primeiro que morreu por causa do testemunho do Pai. Pois muitos servos do Senhor morreram por causa da verdade do evangelho (profetas do AT como João Batista). Mas este título tem a ver com a morte e a ressurreição de Cristo. Jesus é o primeiro que morreu e ressuscitou em glória. Ele está vivo para sempre. Ele próprio testifica isso (Ap 1.18). Jesus é primogênito; quer dizer que após Ele estamos nós. Ele matou a morte com Sua morte e ressurreição; destruiu nosso inimigo. Crentes que estão sofrendo e até morrendo por causa da fé precisam ouvir que o seu Salvador destruiu o poder da morte. Que consolo ouvir isso! A morte não é o fim para o crente, mas a passagem para a glória com Cristo. Quem nos separará do amor de Cristo? Ninguém, nem mesmo a morte, pois Cristo a venceu e nEle somos mais que vencedores (Rm 8.35-39).

c) Jesus é o Soberano dos Reis da terra: Este título expressa ainda mais a glória de Cristo. Aponta para Sua presente exaltação em glória. Ele morreu, ressuscitou e subiu ao céu para reinar sobre tudo e sobre todos. Ele é Rei Soberano. Está acima dos homens mais poderosos da terra, e um dia todos estes vão se curvar perante Ele. Jesus está acima de Roma, dos imperadores. Ele está acima dos impérios, das nações soberbas, dos reis e presidentes da terra que ostentam riqueza e poder. Ele é o Rei dos Reis que veio estabelecer o Seu reino que não terá fim. Devido à Sua perfeita obediência, o Pai O Exaltou e Lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho nos céus e na terra (Fp 2.9-11).

O Servo Sofredor é agora o Glorioso Rei e Senhor do Universo. Ele controla a história. Ele governa de forma especial a Sua Igreja. Podemos ser perseguidos e tentados por Satanás e seus agentes, mas Cristo é o Nosso Rei Soberano. Ele nos tem em Sua mão direita (Ap 1.16; 2.1); quer dizer: Ele age e governa em nosso favor. Isso mostra o Seu cuidado com a Sua Igreja. Ninguém pode arrebatar você da mão de Cristo (Jo 10.28). Ouvir isso é consolador para uma igreja perseguida, pois Cristo é o Soberano dos reis da terra, que cuida dela e a conduz ao triunfo final.

3) João louva a Deus pela obra redentora de Cristo (v.6): “aquele que nos ama” (amor constante); redenção pelo sangue de Cristo; um povo salvo para servir e adorar a Deus (reis e sacerdotes). Alguns ministros cortam essa saudação pela metade e não citam o versículo 6. O que os irmãos acham dessa prática? Isso não é uma boa prática, pois a liturgia tem a ver com a aliança de Deus com Seu povo e é a proclamação do pacto (Ex 19.5,6). Deus nos fez sacerdotes e reis para Ele mesmo mediante Sua graça e paz em Cristo Jesus. É bom lembrar-nos disso quando ouvimos a saudação do Senhor. Nós somos o que somos pela graça de Deus.

GRAÇA: A palavra “graça” é uma tradução do termo hebraico “chanan” e do termo grego “charis”. Segundo a Bíblia, a graça é uma ação manifestada não só por Deus, mas também pelos homens, expressando o favor de um homem a outro (Gn 33.8,10; 39.4; 47.25, Rt 2.2, I Sm 1.18; 16.22). A expressão da graça nos relacionamentos humanos nem sempre expressa um favor imerecido. Mas quanto à manifestação da graça de Deus para com os homens, o Seu favor é sempre imerecido. A graça de Deus, portanto, “é a concessão de bondade a alguém que não tem direito a ela” (Ed 9.8, I Co 15.10).

Paulo usa a palavra graça por mais de cem vezes em suas treze cartas. Essa palavra expressa, nos escritos de Paulo:

a) Uma qualidade de Deus ou do Senhor Jesus Cristo: expressão da Sua bondade (II Co 8.9);

b) A fonte de todas as bênçãos espirituais da salvação concedidas aos pecadores (Ef 1.6,7; 2.7-9, Tt 2.11; 3.4-7). Pela graça de Deus somos escolhidos (Ef 1.4-7), justificados (Rm 3.24; 4.16, Tt 3.7), regenerados (Ef 2.5, II Tm 1.9, Tt 2.11; 3.4,5) e, finalmente, herdaremos a salvação eterna. A graça de Deus é o Seu favor incondicional, soberano e dispensado ao homem, a fim de salvá-lo sem nenhum mérito da sua parte (Ef 2.8-10). É também pela graça que Deus concede dons à Sua Igreja, tendo em vista a sua edificação (Ef 4.7-12) e nos capacita a dar frutos de gratidão (I Co 15.10, II Co 8.1).

A graça é o amor de Deus por aqueles que nada merecem; é o Seu favor imerecido, operando nos corações e nas vidas de pecadores carregados de culpa, que se voltam para Deus em busca de refúgio. A estes, Deus salva por Sua graça e os torna Seus filhos. A palavra graça expressa a aliança de Deus com o Seu povo. Por Sua graça, Ele trouxe para junto de Si os que antes estavam em rebelião contra Ele e mereciam o Seu castigo. Sua graça é Seu favor imerecido por pecadores. Ele nos salvou por Sua graça mediante os méritos de Cristo (Ef 2.8, Rm 3.24, II Tm 1.9). Deus é nosso Deus e nós somos o Seu povo somente pela graça. Por isso, a aliança de Deus conosco é chamada de aliança da graça. Deus toma a iniciativa de Se relacionar conosco. Graça é desfrutar da salvação do Senhor, sem merecer. É receber o perdão quando merecíamos o castigo. É ir para o céu quando merecíamos o inferno! Tudo isso porque Cristo pagou o preço da nossa redenção na cruz do Calvário. A cruz é uma manifestação da graça e da paz de Deus em nosso favor (Sl 85.10).

PAZ: “Paz” é uma palavra muito usada pelos judeus em suas saudações: “shalom lecha” – “paz para você” (Jz 6.23, I Sm 25.6). Cristo falou as mesmas palavras para os Seus discípulos no dia da ressurreição (Jo 20.19).

A palavra paz (Shalom) não indica simplesmente a ausência de guerra, mas aponta para um bem-estar em todos os sentidos, como consequência de uma relação pacífica com o Senhor Deus que promove a paz para o Seu povo.

Paz, na Bíblia, é mais que ausência de guerra. É viver um relacionamento íntimo com Deus; é ser reconciliado com Ele por meio de Cristo e ter segurança em Deus. Em Cristo, o crente desfruta da paz com Deus e da paz de Deus. Qual a diferença entre a paz com Deus (Rm 5.1) e a paz de Deus (Jo 14.27, Fp 4.7)? Paz com Deus – estado – reconciliação com Deus; Paz de Deus – condição – convicção interior de que tudo está bem; é confiança, segurança no Senhor. É a tranquilidade do salmista que escreveu o Salmo 125. A graça e a paz têm sua origem em Deus (Tg 1.17) e foram obtidas para o crente por meio de Cristo (Jo 14.6, Hb 7.25).

MISERICÓRDIA: (I Tm 1.2, II Tm 1.2, II Jo 3): No hebraico, chesed; no grego, eleos. A palavra misericórdia expressa o terno amor de Deus para com os que se encontram na miséria. Ser misericordioso é ter o coração na miséria do outro; é sentir compaixão dos que sofrem. O termo “misericórdia” ocorre com frequência num contexto em que se estende auxílio aos que estão em miséria (Lc 10.33-37, Is 54.7,8 10, Rm 9.23; 11.31). “Se a graça de Deus vê o homem como culpado diante de Deus e, portanto, necessitado de perdão, a misericórdia de Deus o vê como um ser que está suportando as consequências do pecado, que se acha em lastimável condição e que, portanto, necessita do socorro divino” (Berkhof).

A palavra “misericórdia” expressa a benignidade de Deus voltada para os Seus filhos que precisam de Sua ajuda em todas as coisas. Deus não só sente compaixão dos que se acham em miséria, mas está sempre pronto para aliviar a sua desgraça. A misericórdia de Deus, nesse sentido, é uma manifestação da Sua graça (Is 60.10).

A misericórdia do Senhor está sobre todas as Suas obras (Sl 145.9, Lc 6.35), mas ela se manifesta de forma especial e salvífica na vida dos Seus filhos que O temem (Ex 20.6, Dt 7.9, Sl 86.5, Lc 1.50). O SENHOR é Misericordioso e está sempre disposto para ajudar o Seu povo em suas aflições (Sl 103). O povo de Deus O louva por Sua infinita misericórdia (Sl 92.1,2, Sl 106.1, Sl 117). O povo de Deus é chamado a imitar a misericórdia do Pai (Lc 6.36; 10.37).

Aplicações:

1) A Saudação vem do Senhor em resposta à nossa confissão expressa na invocação. A invocação aponta para nossa relação com Deus: esperamos nossa ajuda Dele somente (Sl 124.8). A saudação, por sua vez, expressa a relação de Deus para conosco: Ele quer nos dar Sua paz e Sua graça. A pregação do evangelho testifica esse fato. A saudação não consiste em meras palavras proferidas ao vento, mas em algo real que Deus nos oferece e que experimentamos dia a dia (II Pe 1.2). O ministro fala em nome de Deus. É o próprio Deus quem está saudando a Sua Igreja, oferecendo-lhe Sua graça, misericórdia e Sua paz em Cristo Jesus.

2) A saudação é uma afirmação divina de que o Senhor está sempre conosco (Sl 23.4; 46.1,11, Mt 28.20, Jo 14.16,17). Na companhia do Deus Triúno, somos assegurados da Sua graça, paz e Seu amor. A saudação contém o que precisamos para esta vida e para a vida eterna. É o SENHOR quem pronuncia a saudação ao Seu povo. É o Senhor quem está ativamente presente na vida do Seu povo.

3) Devemos ter cuidado com a monotonia e desatenção durante o culto, em especial, na hora da saudação. Ouvir sempre a mesma coisa pode nos deixar acostumados e nos levar a esquecer do real significado da saudação. Isso é um perigo! Podemos nos prevenir disso, entendendo o que é o culto: o encontro do SENHOR com Seu povo. Além disso, temos o privilégio de usar palavras diferentes na saudação, a cada domingo (I Co 1.3, Ap 1.4-6, II Pe 1.2).

4) Devemos receber a saudação do Senhor com alegria, fé e de olhos abertos. Alegria – chegar cedo ao culto para receber Sua palavra (Sl 122.1); fé – confiar nas promessas de Deus; olhos abertos – para ver as mãos erguidas do ministro relembrando-nos de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo que subiu ao céu e, de mãos erguidas, abençoou Seus discípulos que ficaram na terra (Lc 24.50,51). Após receber a saudação, a igreja entoa, cheia de alegria, salmos e hinos de louvor a Deus, adorando-O pelo que Ele é e dando-Lhe graças pela obra graciosa da salvação em Cristo.

Outros elementos presentes na abertura do culto:

1) Chamado para o culto: Esse elemento vem do SENHOR e é Sua convocação para a Igreja se reunir em Sua presença, a fim de adorá-Lo. Ocorrem entes da invocação. O ministro, em nome do Senhor, chama a congregação para encontrar-se com o Senhor e adorá-Lo. Ele fala em nome de Deus. É o SENHOR quem está chamando. Geralmente se usam as palavras de louvor dos salmos (Sl 92.1,2; 95.1-6; 100.1; 113.1,2; 117; 134). Esse elemento é importante para nos lembrar que o culto não é uma opção para o crente, mas um chamado do Senhor e também que Deus, mesmo sem precisar, deseja ser adorado fiel e sinceramente por Seu povo (Jo 4.23). Como você responde a um crente que afirma que a Bíblia não nos ordena reunirmos duas vezes no domingo, e que cultuar apenas uma vez é suficiente para guardar o Dia do Senhor e atender o Seu chamado para o culto?

2) Oração na sala do conselho: Segundo G. Vandooren, essa prática vem dos tempos de perseguição, quando o culto era cruelmente interrompido pelos inimigos. O seu propósito era pedir ao Senhor proteção sobre isso. Em circunstâncias normais, essa prática não é necessária, pois os presbíteros já têm orado em casa pelo ministro e pelo culto, tanto sozinhos quanto com suas famílias.

O aperto de mão: A explicação dessa prática é que o presbítero, em nome do conselho, dá ao pastor o mandato de pregar, e no final, aperta a mão para dizer que o sermão foi bom. “Não me impressiono com esta explicação. O mandato para pregar vem da carta de chamado e da ordenação. Isso não precisa ser repetido a cada dia do Senhor. E se há objeção ao sermão, vai recusar apertar a mão?” (G. Vandooren, The Beuty of Reformed Liturgy). Esse costume vem de dias após a Reforma, quando havia pregadores itinerantes, desconhecidos pela congregação. Antes de subir ao púlpito, o Conselho tinha uma conversa com aquele pregador. O aperto de mão faz sentido nesse caso, mas, em circunstâncias normais, não é necessário. Qual a sua opinião sobre oração do Conselho antes do culto e o aperto de mão ao pregador, por um dos oficiais?

3) Oração silenciosa da igreja: G. Vandooren tem dificuldades com essa prática. Ele afirma que o culto é congregacional e começa quando nos aproximamos do Senhor, juntos como corpo de Cristo. Há muitas oportunidades para orações privadas em casa e não apenas no domingo de manhã, antes do culto. Deveríamos orar mais durante a semana, pelo ministro, quando ele está preparando os sermões. Domingo de manhã é um pouco tarde e ele precisa de nossas orações durante a semana.

Vandooren respeita a prática da oração silenciosa, mas não a acha necessária, pois sugere que o culto começa com todos juntos, fazendo as mesmas coisas. Ele ainda diz que podemos nos preparar para o culto antes, e, melhor, já no sábado à noite, não dormindo tarde, por exemplo, conforme o princípio de Domingo 38: “(…) que todos os dias da minha vida eu descanso de minhas más obras, deixando o SENHOR trabalhar em mim por seu Santo Espírito, e inicio nesta vida o descanso eterno”. Você concorda com G. Vandooren? Qual a sua opinião sobre oração silenciosa da Igreja? É uma boa prática? Ou não é necessária?

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